A irritabilidade está entre os problemas mais comuns e angustiantes enfrentados por adolescentes e suas famílias.
Seu principal sintoma é uma reação exagerada a estímulos emocionais negativos, que provoca explosões de raiva e um estado de humor intensamente irritável.
Embora os tratamentos disponíveis, como psicoterapia e medicamentos, ajudem algumas pessoas, eles podem ser inacessíveis ou mal tolerados.
Nossa nova pesquisa, baseada em um ensaio clínico duplo-cego e controlado por placebo, mostra que micronutrientes de amplo espectro (vitaminas e minerais) podem reduzir significativamente a irritabilidade grave em adolescentes. Aqueles com comportamento gravemente disruptivo apresentaram melhoras especialmente expressivas.
Isso oferece uma alternativa segura, aplicável em larga escala e fundamentada na biologia aos tratamentos psiquiátricos convencionais.
Necessidade urgente de tratamentos mais eficazes
A irritabilidade está presente em diversos quadros psiquiátricos, como ansiedade, depressão, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) e outros transtornos de comportamento disruptivo.
É urgente contar com intervenções que atuem diretamente sobre a irritabilidade, provoquem menos efeitos colaterais e estejam disponíveis para todas as comunidades.
Os dados sobre a saúde mental dos jovens são particularmente preocupantes. Nas últimas duas décadas, ela vem se deteriorando em todo o mundo e agora chegou a uma “fase perigosa”, segundo uma comissão da Lancet.
Apesar disso, pesquisas apontam repetidamente a falta de tratamentos eficazes e acessíveis para jovens com irritabilidade grave, o que indica uma necessidade importante de saúde pública ainda não atendida.
Micronutrientes e irritabilidade em adolescentes no estudo BEAM
Nossos resultados se baseiam no ensaio Equilíbrio das Emoções dos Adolescentes com Micronutrientes (BEAM). Nele, 132 adolescentes de 12 a 17 anos, sem uso de medicamentos e com irritabilidade moderada a grave, foram distribuídos aleatoriamente para receber micronutrientes - quatro comprimidos, três vezes ao dia - ou um placebo ativo durante oito semanas. Um psicólogo clínico os acompanhou mensalmente pela internet.
A resposta ao placebo foi elevada, o que sugere que a simples participação no estudo ajudou muitos adolescentes a se sentirem capazes de melhorar seu comportamento. Ainda assim, os micronutrientes superaram o placebo em medidas clínicas importantes, como irritabilidade, reatividade emocional e melhora geral.
Os efeitos mais intensos ocorreram entre adolescentes com transtorno disruptivo da desregulação do humor (TDDH): 64% responderam aos micronutrientes, contra 12.5% dos que receberam placebo. Isso representa um efeito incomumente grande para uma intervenção psiquiátrica.
Pais dos participantes que receberam micronutrientes avaliaram a conduta e o comportamento pró-social dos adolescentes de forma muito mais positiva do que os pais daqueles que receberam placebo.
O tratamento com micronutrientes também esteve associado a melhoras mais rápidas na irritabilidade avaliada pelo profissional clínico, na disforia relatada pelos pais e na qualidade de vida, no estresse e nos comportamentos pró-sociais relatados pelos próprios adolescentes.
Um dos resultados mais notáveis e tranquilizadores envolveu a ideação suicida, relatada por cerca de um quarto dos participantes no início do ensaio. Ela melhorou ao longo do tempo nos dois grupos, mas a mudança foi maior entre os adolescentes que tomaram micronutrientes. Os comportamentos de automutilação também diminuíram em ambos os grupos.
Apenas um efeito colateral diferiu significativamente entre os grupos: a diarreia foi mais frequente com micronutrientes (20.9%) do que com placebo (6.2%). Em geral, porém, foi temporária e desapareceu quando os nutrientes passaram a ser tomados com alimentos e água.
Uma minoria, inferior a 10%, teve dificuldade para engolir os comprimidos. Outros efeitos colaterais, relatados igualmente nos dois grupos, incluíram dores de cabeça e de estômago ocasionais ou boca seca. Eles tendiam a desaparecer nas primeiras semanas.
A situação socioeconômica importa
A condição socioeconômica dos adolescentes influenciou a resposta ao tratamento.
Participantes de meios socioeconômicos menos favorecidos tiveram maior probabilidade de se beneficiar dos micronutrientes. Isso é particularmente relevante tanto para a prática clínica quanto para a saúde pública.
Uma condição socioeconômica mais baixa costuma estar associada a maior exposição a insuficiências nutricionais e estresse crônico, menor acesso a serviços de saúde e índices mais altos de dificuldades de saúde mental.
Nossos resultados sugerem que os micronutrientes podem ajudar a enfrentar vulnerabilidades nutricionais subjacentes, possivelmente mais frequentes ou mais graves em grupos desfavorecidos.
Esse padrão também indica que a suplementação de micronutrientes, se financiada pelo poder público, poderia funcionar como uma intervenção de baixo custo e aplicável em larga escala, com potencial para reduzir desigualdades em saúde.
Muitos tratamentos psicossociais ou farmacológicos baseados em evidências exigem recursos - tempo, transporte e acesso a especialistas - cuja falta prejudica desproporcionalmente as famílias de baixa renda.
Em nosso ensaio, todos os encontros do psicólogo com os adolescentes e suas famílias ocorreram pela internet, e os micronutrientes foram enviados por serviço de entrega para todo o país. Isso tornou a intervenção acessível, especialmente para comunidades rurais.
Os micronutrientes podem representar uma intervenção acessível e, ao mesmo tempo, capaz de atender às necessidades específicas dos jovens mais expostos a riscos, que muitas vezes são os menos bem atendidos pelos caminhos tradicionais de cuidado.
O estudo foi desenvolvido em parceria com profissionais de saúde Māori e se enquadra em uma estrutura de tikanga, ou tradição, Māori. A participação Māori foi elevada (27%), e a equipe trabalhou em estreita colaboração com os participantes, suas famílias e os profissionais de saúde para ajudar a melhorar os resultados em saúde mental.
O que os resultados indicam sobre a irritabilidade
O ensaio BEAM oferece evidências robustas de que uma abordagem nutricional simples pode melhorar de forma significativa sintomas como reatividade emocional, dificuldades de conduta e até ideação suicida.
Esses resultados são relevantes para pais, profissionais de saúde, professores e formuladores de políticas que buscam intervenções seguras e práticas, sobretudo para jovens que não conseguem acessar os tratamentos existentes ou não respondem bem a eles. Também ressaltam implicações importantes para a equidade, já que adolescentes de famílias de baixa renda apresentaram respostas mais fortes.
Nossos resultados oferecem uma nova perspectiva sobre as causas de alguns problemas psiquiátricos, muitas vezes entendidos como desequilíbrios químicos ou disfunções familiares.
Eles apresentam alguns casos de irritabilidade como uma possível vulnerabilidade nutricional e metabólica, que talvez possa ser enfrentada com mais atenção à qualidade dos alimentos, juntamente com alguma suplementação de micronutrientes de amplo espectro.
Julia J Rucklidge, professora de Psicologia da Universidade de Canterbury; Angela Sherwin, doutoranda em Nutrição da Universidade de Canterbury; Joseph Boden, professor de Psicologia e diretor do Estudo de Saúde e Desenvolvimento de Christchurch, da Universidade de Otago; e Roger Mulder, professor de Psiquiatria da Universidade de Otago.
Este artigo foi republicado de The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.






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