Talvez você já tenha visto nas redes sociais vídeos do tipo “o que eu como em um dia”, nos quais pessoas - geralmente influenciadores que se enquadram nos padrões convencionais de beleza e usam roupas esportivas - mostram tudo o que consumiram naquele dia.
Embora pareçam uma diversão inofensiva, esses conteúdos podem reforçar ideias perigosas sobre alimentação, peso e imagem corporal.
Já trabalhei com pessoas com transtornos alimentares que assistem a esses vídeos e testemunhei diretamente os danos que eles podem causar.
Veja o que as pesquisas mostram e o que é importante saber sobre o assunto.
Vídeos sobre “o que eu como em um dia” podem prejudicar a saúde
Os vídeos de “o que eu como em um dia” fazem sucesso há mais de uma década e acumulam bilhões de visualizações.
Eles são direcionados tanto a homens quanto a mulheres, e muitos afirmam incentivar a saúde e a boa nutrição. Apesar disso, conteúdos assim podem causar mais prejuízos do que benefícios.
Pouquíssimos desses criadores têm formação formal em saúde ou nutrição, o que aumenta o risco de disseminação de informações incorretas.
Com frequência, eles mostram dietas de baixa caloria, eliminam grupos alimentares inteiros ou promovem a chamada “alimentação limpa”, uma ideia problemática, para dizer o mínimo.
Alguns chegam a incentivar comportamentos perigosos, como pular refeições, comer muito pouco ou usar laxantes para purgar os alimentos.
Esses vídeos também podem transmitir mensagens prejudiciais sobre a imagem corporal. Muitos usam filtros de beleza para produzir imagens que promovem ideais de corpo irreais.
É comum que mostrem a pessoa de frente e de lado, na academia ou usando roupas justas, que realçam o corpo. Também podem incluir fotos de “antes e depois” da perda de peso, passando a mensagem nociva de que esse deveria ser o objetivo de todos.
A mensagem implícita é clara: “coma o que eu como em um dia e você pode ficar com a minha aparência”.
Mas essa ideia não é apenas perigosa: ela é totalmente falsa e equivocada.
Saber o que uma pessoa “come em um dia” não significa que você ficará parecido com ela se seguir o mesmo cardápio.
Na verdade, o relato do que alguém consumiu ao longo de 24 horas nem sequer oferece informações precisas sobre a saúde nutricional dessa pessoa - muito menos sobre a sua.
Você não é a outra pessoa
Assim como nossa saúde, nossas necessidades nutricionais são individuais e podem mudar de um dia para outro.
O que é uma escolha “saudável” para uma pessoa pode ser completamente diferente para outra, dependendo de fatores como:
- genética;
- ambiente;
- idade;
- alimentos que gostamos de comer;
- quantidade de energia que gastamos;
- histórico médico.
A relação entre saúde e alimentação é melhor avaliada ao longo do tempo, e não com base em um único dia.
Tomar decisões sobre o que comer a partir de um breve retrato da alimentação de outra pessoa dificilmente levará a uma saúde melhor. No conjunto, isso pode até deixá-lo em uma situação pior.
5 formas como esses vídeos podem afetar a saúde mental
Aquilo a que assistimos na internet pode influenciar nosso humor, comportamento e imagem corporal.
Se você vê esses vídeos com frequência e percebe que está fazendo ou vivenciando alguma das cinco situações a seguir, é hora de ficar alerta:
- Comportamento alimentar desordenado. Comer menos do que o corpo precisa, pular refeições, eliminar grupos alimentares inteiros, ter episódios de compulsão alimentar e purgar são sinais de comportamento alimentar desordenado. Eles podem levar a problemas sérios de saúde mental, como transtornos alimentares.
- Humor deprimido. Assistir a vídeos que promovem dietas de baixa caloria pode piorar o humor. Você pode se sentir desanimado ao se comparar com outras pessoas ou, mais precisamente, com a versão que elas apresentam de si mesmas na internet.
- Imagem corporal negativa. Pesquisas mostram que assistir a vídeos de “o que eu como em um dia” pode fazer as pessoas se sentirem pior em relação ao próprio corpo e valorizá-lo menos.
- Pensamentos obsessivos e ansiedade. A obsessão pela dieta “perfeita” pode aumentar a ansiedade em relação à comida e ao ato de comer. Dietas que incentivam uma abordagem muito detalhada da nutrição - como separar as refeições em componentes, a exemplo de carboidratos e proteínas, ou pesar os alimentos - podem alimentar ainda mais pensamentos obsessivos.
- Foco restrito na vida. Ter o conteúdo das redes sociais repleto desses vídeos pode dar importância excessiva à comida, à alimentação e à imagem corporal na percepção do próprio valor. Com o tempo, isso afeta a saúde e o bem-estar.
O que posso fazer?
Se você encontra vídeos de “o que eu como em um dia” com frequência e percebe que eles afetam seu humor, comportamento alimentar ou senso de valor próprio, tente:
- compreender que esses vídeos não são feitos para atender às suas necessidades individuais de saúde ou nutrição e que muitos contêm mensagens prejudiciais;
- evitar interagir com vídeos que promovam comportamentos alimentares desordenados, padrões de beleza idealizados ou que façam você se sentir mal depois de assisti-los;
- deixar de seguir perfis que publicam esse tipo de conteúdo regularmente ou tocar em “não tenho interesse” no vídeo do TikTok, para que o algoritmo deixe de mostrar mais publicações semelhantes;
- equilibrar o conteúdo das redes sociais com temas de outras áreas da vida, além da comida e da alimentação, como arte, design, animais, livros, esportes ou viagens. Preencha esse espaço com interesses que contribuam para seu bem-estar pessoal;
- considerar fazer pausas regulares das redes sociais e observar se, de modo geral, você se sente melhor.
Se quiser acompanhar publicações sobre comida, procure criadores que tentem contrariar essas tendências negativas, dando mais atenção ao prazer e ao sabor.
Caso esteja com humor deprimido, apresente comportamentos alimentares desordenados ou tenha dificuldades com a imagem corporal, procure ajuda de um médico generalista. Esse profissional poderá encaminhá-lo a especialistas que ofereçam tratamentos baseados em evidências, como a terapia cognitivo-comportamental.
Se você tem histórico de transtorno alimentar ou suspeita que possa ter um, pode entrar em contato com a linha nacional de apoio da Fundação Butterfly, na Austrália, pelo telefone 1800 334 673 ou pelo atendimento on-line.
No fim das contas, os vídeos de “o que eu como em um dia” não são realmente úteis. Eles oferecem pouquíssimas informações que ajudem a orientar seus objetivos de saúde ou nutrição.
Se estiver pensando em mudar sua alimentação, é importante consultar um profissional qualificado, como um nutricionista habilitado, que possa conhecer sua situação e acompanhar possíveis riscos.
Catherine Houlihan, professora sênior de Psicologia Clínica, Universidade da Costa do Sol
Este artigo foi republicado do The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.






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